Domingo triste na Sapucaí tem acidente grave e apresentações mornas

Desfile da Paraíso do Tuiuti. Foto: Tata Barreto/Riotur
 A primeira parte da maratona de samba na Sapucaí em 2017 passará à História como um dos momentos mais tristes da festa. Um acidente grave, com o último carro alegórico do Paraíso do Tuiuti, marcou a noite, deixando feridos graves, muita tensão e tristeza. Equivocadamente, a Liga das Escolas de Samba não parou o cortejo das escolas, nem mesmo para o socorro aos atingidos. Favoritas dos últimos anos, Beija-Flor e Salgueiro destacaram-se na jornada que, carnavalescamente falando, foi flácida.
Os graves acidentes deixaram 20 feridos, oito deles transferidos para hospitais, três mulheres em estado grave. O último carro do Paraíso do Tuiuti, primeira escola a desfilar, perdeu a direção na pista molhada do setor 1, atropelando pessoas que estavam dos dois lados da pista. Mesmo antes do acidente, a escola de São Cristóvão tivera problemas que devem lhe custar a permanência na elite — a comissão de frente, por exemplo, apresentou falhas em frente à primeira cabine dos jurados.
O acidente atrasou e derrubou parte da expectativa do desfile da Grande Rio, dona do enredo mais pop do ano, o da homenagem a Ivete Sangalo. A baiana bateu um bolão na interação com a escola: abriu o desfile como integrante da comissão de frente, dançando a coreografia com inflamada empolgação. No fim da avenida, retornou à concentração e desfilou novamente, desta vez no último carro, ao lado do marido e do filho. Entre uma e outra aparição, a tricolor de Caxias concentrou convidados igualmente populares, como as apresentadoras Xuxa Meneghel e Luciana Gimenez. Deu até para ouvir gritos tímidos de “é campeã”.
A Imperatriz Leopoldinense substituiu o axé com indígenas do Xingu, e seus clamores por direitos e sustentabilidade, no enredo que incomodou o agronegócio. O cacique caiapó Raoni Metuktire, 86 anos, destacou-se num carro alegórico, ao lado do neto Beptuk Metuktire, 22 anos, para traduzir sua mensagem de agradecimento para o português. “Que bom que os brancos lembraram de nós, porque querem destruir nossos parques e florestas e poluir os rios”, lamentou o cacique, estrela de uma apresentação morna da escola de Ramos.
Em seguida, passou a Vila Isabel, com a influência da cultura negra em ritmos que conquistaram o continente americano, como o próprio samba, o blues, o soul, o rap e o hip hop. O carnavalesco Alex de Souza apostou na força da imagem de cantores consagrados para celebrar estilos consagrados de música. Ele reconheceu a falta de empolgação do público. “A escola fez um desfile bonito, mas vamos ver. Acho o público de domingo muito frio”, lamentou.
A apresentação mais correta da noite foi do Salgueiro, que se consolida como favorito ao título. Com alegorias grandiosas e fantasias ricas, a vermelho e branco tijucana trouxe enredo desenvolvido com a qualidade habitual do carnavalesco Renato Lage. Antes, a escola precisou tourear a pista suja de óleo, derramado pelas antecessoras. A maratona, que não fora interrompida nem para socorrer feridos graves, esperou a limpeza. O início do desfile ainda foi tenso, mas depois o Salgueiro passou impecável.
O domingo teve a Beija-Flor no encerramento. Dona do melhor samba do ano, a Deusa da Passarela dividiu o público com sua escolha radical por uma estrutura sem alas demarcadas, e fantasias muito parecidas. Os carros alegóricos grandiosos e extremamente ricos, assinatura da azul e branco nilopolitana, impressionaram a plateia. A ideia dos blocos de índios dificultou a leitura do enredo sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, o romance de José de Alencar, mas a escola mantém lugar cativo entre as favoritas ao título.